sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mr. Vingança (Coréia do Sul - 2002)



Título original: Boksuneun Naui Geot/ Sympathy For Mr. Vengeance
Direção: Chan-wook Park
Elenco: ninguém relevante

"Eu sei que você é uma boa pessoa... por isso sabe que te tenho que te matar, não sabe?"

Em 2007, com atraso de cinco anos, o que mostra, mais uma vez, o amadorismo das distribuidoras brasileiras, Mr. Vingança, primeira parte da trilogia sobre vingança do diretor sul-coreano Chan-wook Park (os seguintes são Oldboy e Lady Vingança), foi lançada por aqui.

Este é o filme mais cru, chocante e angustiante da série. E não é pouco para um tríptico cheio de sessões de tortura, vendettas impiedosas e lutas sangrentas, tudo com poucos e inesquecíveis diálogos, trilhas arrebatadoras e imagens deslumbrantes.

O minimalismo (diálogos e canções esparsas) se une ao preciocismo (planos-seqüência meticulosamente engendrados) para construir uma obra deprimente e trágica.

Dois "Senhores Vingança" dividem o filme nos destinos que se cruzam. Ninguém é culpado, ninguém é inocente. Ambos são boas pessoas que, vítimas das mudanças, acabam se opondo um ao outro por não conseguirem lidar com a perda do que têm de mais importante na vida.

Mais que as intensas seqüências de tortura, facadas, profanação de cadáveres e assassinatos, o que mais deprime no filme, como nos dois seguintes da série (que tratam do mesmo tem, mas não têm relação direta entre si), é o final inexorável, porém imprevisível.

Não vou adiantar sobre a trama, pois as surpresas acontecem durante todo o filme. Saiba apenas que é um filme muito forte (o mais forte que já vi), que vai te fazer mal pela história; porém a trilogia inteira é obrigatória para cinéfilos.

Você vai pensar como o destino (contingências + escolhas) pode levar pessoas ingênuas e boas a fazer coisas horríveis. Esta é a história da humanidade.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O segredo de seus olhos (Argentina - 2009)




Título Original: El Secreto de Sus Ojos
Direção: Juan José Campanella
Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella
Prêmios: Oscar de melhor filme estrangeiro 2010

Enfim consegui assistir ao comentadíssimo "O segredo de seus olhos", filme argentino vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano. Mais uma vez ressalto que não sou crítica de cinema e por isso levo o texto a um tom mais pessoal.

O foco da trama está em Espósito, um oficial de justiça aposentando que passou os últimos 25 anos de sua vida assombrado por um caso de assassinato e estupro ocorrido na década de 1970 e, por esse motivo, pretende escrever um romance baseado nos fatos ocorridos na época. A tentativa de organizar os acontecimentos de forma a compreender como eles influenciaram sua vida: envolve paixões, ideologias, justiça e uma lacuna a qual Espósito tenta preencher a todo custo durante as duas horas de filme.

A certa altura de "O segredo de seus olhos", o marido da vítima, que acaba por criar uma relação de confiança com Espósito, revela que não queria a pena de morte para o assassino de sua mulher, preferindo a prisão perpétua para ter certeza de que ele teria uma vida inteira vazia. A idéia de vida vazia se torna uma das chaves da trama, já que podemos concluir que todos os personagens viveram 25 anos vazios, assim como o marido previra para o assassino de sua esposa.

Ao resgatar seu passado, Espósito se vê novamente diante de sua antiga paixão e chefe, a promotora Irene, o que o leva a resgatar outro ponto de sua história, o caso de amor correspondido, mas não concretizado, que obviamente levaria qualquer um a pensar se sua vida vazia poderia ter sido de outra forma.

Ainda que repleto de personagens ricos que, diga-se de passagem, poderiam ser mais desenvolvidos, o charme do filme está nos pequenos detalhes como a letra A que falta na máquina de escrever, olhares em fotografias, a mania de trancar ou não a porta de Irene, um retrato virado para baixo e um adeus que não aconteceria na realidade. Destaque para o personagem Pablo Sandoval, inseparável parceiro de Espósito, alcoolatra e responsável pelas cenas cômicas e também pelos diálogos mais profundos do filme, interpretado por Guilhermo Francella de forma sublime.

Memorável.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Abraços Partidos (Espanha - 2009)

Título Original: Los abrazos rotos
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo, José Luis Gómez, Tamar Novas, Rúben Ochandiano, Lola Dueñas


É certo que Penélope Cruz e Pedro Almodóvar nasceram um para o outro. Em "Abraços Partidos" isso fica evidente, pois o filme não teria razão de existir sem a musa Lena, interpretada por Penélope de forma envolvente, como sempre.

A trama central do filme gira em torno de um cineasta que, após perder a visão, assume o pseudônimo Harry Caine, se dedicando a escrever roteiros. Seu passado vem à tona quando um famoso empresário morre e seu filho o procura para escrever um roteiro sobre a mágoa que guarda do pai. O passado em questão é o último filme do cineasta, ainda como Mateo Blanco, que teve como sua protagonista Lena, amante do empresário que obsessivamente resolveu produzir o filme e encarregou seu filho de filmar Lena durante toda a filmagem.

De fato, Almodóvar criou Lena para que Penélope Cruz pudesse brilhar, pois todas suas cenas foram feitas para fascinar e mostrar o fascínio que uma mulher pode causar (algo típico de Almodóvar). Ela brinca com a câmera, brilha chorando, fumando, como Marylin ou Audrey Hepburn. É uma mulher real que encanta e ponto. Assim é o personagem criado para Penélope, por ser Penélope, e não é a toa que o cineasta se apaixona pela atriz e por sua imagem.

Penélope ama as câmeras. As câmeras amam Penélope. Isso resume tudo.

Sacco e Vanzetti (Itália - 1971)


Título Original: Sacco e Vanzetti
Direção: Giuliano Montaldo
Elenco: Riccardo Cucciolla e Gian Maria Volonté
Premios: Melhor ator em Cannes (Riccardo Cucciolla)

Com trilha sonora de Ennio Morricone e Joan Baez, o filme narra um dos maiores erros judiciais da história, quando nos Estados Unidos da década de 1920, os italianos e anarquistas Sacco e Vanzetti são acusados de roubo e homícidio. O filme não se apronfuda na vida dos dois acusados, mantendo o foco no julgamento absurdo, no complô e na injustiça que causou grande repercussão política.

Curiosidades:

domingo, 5 de setembro de 2010

Todo-Poderoso: O filme (2010)



"O Corinthians é uma república dentro da cidade de São Paulo... ali tem um povo, com outra linguagem, outro idioma, outro governo, outros comportamentos, outra religião" (Casagrande)

Logo nos primeiros minutos do filme precisei pausar o DVD para perguntar pelo Twitter o porquê de algumas (poucas) pessoas torcerem por outros times que não o Corinthians.

Na semana do Centenário do Corinthians, o Fábio Vanzo e eu resolvemos assistir ao filme com uma garrafa de espumante em tom de comemoração, mas é claro que não ficou só nisso. Quando se fala do amor pelo Corinthians a coisa sempre acaba transbordando e as lágrimas, os suspiros e os sorrisos são inevitáveis.

Neste terceiro filme sobre o Corinthians, a narrativa se desenvolve em torno dos 100 anos de história do clube, o que se torna um grande empecilho já que, torcedores de outros times devem concordar, o Corinthians é o time com as histórias mais ricas deste país. Nos anteriores “Fiel” e “23 anos em 7 segundos”, que abordaram respectivamente a queda do time para a série B em 2007 e o famoso jejum de títulos corinthianos que teve fim em 1977, os temas puderam ser desenvolvidos com toda a profundidade e complexidade que o amor incondicional pelo “time do povo” precisa para ser compreendido ou ao menos explicado. É claro que em “Todo-Poderoso” não faltam momentos de emoção e para todo corinthiano ver a encenação da fundação do clube no marco-zero no Bom Retiro ou as primeiras imagens do time em ação e ouvir as histórias clássicas contada pelos seus próprios protagonistas é de tirar o fôlego, mas faltou tempo, afinal, 100 anos de Corinthians não é algo que não se explica em pouco mais de uma hora e meia de filme.

Nos extras do DVD um depoimento da Marília Gabriela explica de forma clara, como só ela poderia fazer, a importância da “Democracia Corinthiana” e, inclusive, ela admite que não se importava com futebol antes disso, pois naquele momento ela viu o futebol fazendo a diferença na história do país e que aquele era o tipo de exemplo que ela tentava passar aos seus filhos. Também nos extras, Casagrande conta que sofria batidas policiais diariamente na época e que foi preso um dia após a final do campeonato paulista de 2002. Como explicar o maior, talvez único, movimento ideológico ocorrido na história do futebol? Ou como não se emocionar com um jogador de futebol (Sócrates, O Pensador Da Bola) em um palanque jurando se manter no país caso a emenda Dante de oliveira (Diretas Já) fosse aprovada?

No filme os títulos são relatados de forma tão rápida que cheguei a pensar que o Brasileiro de 2005 fora esquecido, mas não foi isso. O que explica o amor do corinthiano não são os títulos e sim a paixão. E por isso a fila, a invasão, a fundação e a queda têm mais valor para a narrativa que pretende explicar esse amor. Amor comparado ao amor de mãe por uma torcedora, pelo amor ao marido por outra e definido de forma simples como “o maior amor do mundo”.

Em resumo, “Todo-Poderoso: O filme” não é um grande filme, mas é essencial e é “Curintia, porra!”


Mais: Nas próximas semanas será lançado o filme do São Paulo, “Soberano”. O foco será os inéditos seis títulos brasileiros do clube e isso demonstra a forte diferença entre os corinthianos e são-paulinos. Em outras palavras, diferentemente de outros times, o corinthiano não precisa de títulos para ser corinthiano.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Mosca (1986)



Título original: The Fly
Direção: David Cronenberg
Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz
Prêmios: Oscar de maquiagem

David Cronenberg é doente, costumo brincar. Desde sua estréia ainda no Canadá, com Calafrios (Shivers - 1975), passando por Filhos Do Medo (The Brood - 1979), até Scanners (1981) e Videodrome (1983).

Incesto, perversão sexual, demência, meandros ocultos da mente, nada é tabu para ele. Em seus filmes se espalham vírus da libido, snuff movies, cabeças que explodem, moscas gigantes, crianças deformadas, taras sexuais por acidentes de carro... Cronenberg sempre foi fundo no que há de mais perverso, brutal e primitivo na humanidade.

Seus filmes, até mesmo os mais, digamos, “convencionais” (se é que pode se dizer isso), como Gêmeos: Mórbida Semelhança (1988), Spider (2002) e Marcas Da Violência (2005) trazem questionamentos e perturbações que nem a produção esmerada e a falta de gore conseguem disfarçar.

Este A Mosca, refilmagem d’A Mosca De Cabeça Branca (EUA – 1958), é certamente seu filme mais pop. Pena que o sucesso se deva mais às cenas explícitas de podreira do que do talento do diretor em conduzir, mesmo com atores pífios, uma narrativa curta e direta de cunho melancólico, cheio de filosofia.

Um cientista, testando uma máquina de teletransporte, resolve, após usar animais, experimentá-la consigo. O processo é bem-sucedido, exceto pelo fato de uma mosca entrar junto na cabine. Com isso se desencadeia uma mutação que vai amalgamando as duas criaturas, transformando-o num monstruoso inseto.

Seu comportamento é o que muda primeiro, e, logo, delírios de grandeza vão nos conduzindo, entre uma cena splatter e outra, a uma tensa e triste viagem à nossa condição de animal, de homem, de além-do-homem. Nietzsche nunca foi tão grotesco.

Curiosidade: o fime original inspirou um desenho da Pantera-Cor-De-Rosa em que, no futuro, ela tenta teletransporte, uma abelha entra junto e ambos ficam, digamos, meio-a-meio. Um clássico. Alguém lembra? Está aqui, uma jóia de 1975.

Divã (Brasil - 2009)


Direção: José Alvarenga Jr.
Elenco: Lília Cabral, José Mayer, Alexandra Richter, Reynaldo Gianecchini, Cauã Reymond, Paulo Gustavo, Elias Gleizer

Não gosto de filmes-globo. Acho legal que existam, visto que movimentam mais nossa indústria cinematográfica do que os metidos a nouvelle vague, mas não curto. Só tem ator de novela, história de novela, cenografia de novela, enquadramentos de câmera de novela. São folhetins condensados. Mas este Divã me surpreendeu. Além da MILF de respeito e boa atriz Lilia Cabral, o filme surpreende por fazer de uma história banal (senhora casada, com dois filhos, professora, pintora nas horas vagas, que decide fazer análise) um belo tratado sobre a meia-idade, sobre sonhos e inadequação, com takes ousados e criatividade tanto narrativa quanto no equilíbrio entre humor e drama. Vale a pena conferir para se lembrar que todo mundo é ordinário e, ao mesmo tempo, especial.